Se eu fosse eu, by Clarice Lispector

ENGLISH VERSION BELLOW

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.


 

IF I WERE ME

Source: http://translatedliterature.blogspot.de/2012/02/if.html

When I don’t know where I kept an important paper and the search becomes useless, I wonder: if I were me and I had an important paper to keep, which place would I choose to keep it? Sometimes it works. But sometimes I get so impressed by the phrase “if I were me,” that the search for the paper becomes secondary, and I start to think, I mean I start to FEEL.

And I don’t feel well. Try it: if you were you, how would you be and what would you do? From the beginning we feel an embarrassment: the lie in which we were accommodated was just LOCOMOVED from where it had been settled. However I’ve read biographies of people who suddenly started to be themselves and their lives changed completely.

I think that if I were really me, my friends would not greet on the street, because even my appearance would have had changed. How? I don’t know.

I can’t tell half of the things I would do if I were me. I think, for example, that for some reason I would end up going to jail. And, if I were me, I would give everything I have and I would trust my future to the future.

“If I were me” seems to represent our greatest danger of living, it seems to be a new entrance into the unknownness.

However, I have a hunch that, after the first called craziness of the party that it would be, finally we would have the experience of the world. I know, we would experience finally and fully the pain of the world and our own pain – that one we learned to do not feel. But sometimes we would be taken by pure joy and ecstasy, the legitimate ones, that I can hardly imagine. No, I think I’m somehow already imagining, because I was smiling and I also felt a kind of shame, as that one we feel when we are before something that is too great.

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