Patricia, 39 – Biologist

ENGLISH VERSION BELOW

Fui uma criança/adolescente um pouco complexada. Era gorda, tinha baixa auto estima e minha mãe não sabia lidar com isso. Ao invés de tentar me levantar, dizia que eu era inadequada por estar acima do peso e que eu precisava me adequar à sociedade. Foram muitos regimes, muitos mesmo. Não tive namorados, ficantes, nada… achava que não teria essa chance.

Estudei, me formei e conheci meu primeiro marido pela internet (forma mais fácil de se começar um flerte, haja vista que a aparência seria a última coisa a se olhar). Nos casamos um ano depois. Minha mãe o agradeceu por gostar de uma mulher no auge dos 115 Kg. Casei virgem (fui criada de uma forma cuja virgindade fosse algo mais importante do que qualquer coisa, não tinha outra possibilidade).

Passei 10 anos casada. Não tive filhos por opção (outro motivo de julgamento de todos: como pode uma mulher não dar frutos?). Tivemos bons e maus momentos, mas decidimos nos separar. Ajudei-o por um tempo financeiramente até se estabelecer novamente (e outra vez julgamentos. Como pode uma MULHER sustentar um homem? Tinha que ter arrancado tudo dele). Não me importei.

Acabei me desabrochando e despirocando um pouco. Estava livre, dona do meu nariz. Continuava obesa, mas já tinha auto estima (não tanto, mas tinha), e então conheci o que é o sexo na essência, pois antes não tinha química com o ex-marido. Conheci e sai com alguns homens. Não sei se por auto afirmação, mas fazia questão de deixá-los quando começavam a se interessar. Não sei também se por vingança do que meninos haviam feito comigo na minha juventude. Ao mesmo tempo, pesava o fato de ser mulher e estar “galinhando”. Me protegia, lógico, porém sentia uma necessidade muito grande de sair testando tudo e todos.

Conheci uma pessoa interessante e acabei parando com ele. Foi intenso. Mas nas conversas, ao contar um pouco mais do que devia sobre minha intimidade, acabei sendo escorraçada por ele. Palavras como: puta, piranha, vagabunda, foram ditas por ele, apenas porque havia saído com alguns homens depois da separação. Ele dizia que mulher assim não tem e não se dá valor. Sabe aquelas expressões clichês que tanto conhecemos? Pois bem…

Não conseguia me desvencilhar dele. Ele fuçava minhas coisas, meus emails, meus celulares, atrás de provas do meu passado e esfregava na minha cara como se eu tivesse cometido o crime mais hediondo de toda mulher: sentir-se e ser livre.

“(…) cara como se eu tivesse cometido o crime mais hediondo de toda mulher: sentir-se e ser livre.”

Me sentia mal. Estava grávida, passei muito nervoso com isso, muito mesmo, mas não conseguia me desvencilhar daquele homem que me torturava psicologicamente. Fiquei anos sofrendo tortura psicológica também por outros  motivos. Ele era inseguro e cobrava de mim expectativas que eu jamais conseguia alcançar. Se frustrava e novamente vomitava palavras como se eu fosse um vaso sanitário. E sempre depois vinha, dizia que me amava e pedia perdão. E eu o perdoava, mas cada vez mais desgostosa. Ele conseguia fazer com que eu me sentisse responsável por tudo aquilo. Luto até hoje com as seqüelas daquele relacionamento.

Patrícia, 39 – Biologist
SÃO PAULO, Brasil.

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I was a child/teenager a little complexed. I was fat, low self-esteem, and my mother didn’t know how to deal with that. Instead of supporting and helping me, she used to say that I was inadequate for being overweight and that I had to fight that in order to be accepted by society. There were a lot of diets, really. I didn’t have boyfriends, flirts, nothing… I thought I wouldn’t have a chance.

I studied, graduated and met my first husband on internet (easier, since good looking is the last thing to be considered). We married a year after. My mother was really thankful to him for marring a woman with 115 Kg. I married virgin (I was thought that virginity was more important than anything, so there wouldn’t be another possibility for me).

I was married for 10 years. I didn’t have kids because I didn’t want to (another judgment: how could a woman not procreate?). We had good and bad moments, but we decided to divorce. I helped him financially for a while until he could be stabilized again (and another judgment: how could a WOMAN sustain a man? You should have ripped out everything from him). I didn’t mind.

I ended up blossoming and enjoying more life. I was free, my own person. I was still obese but with some self-esteem (not so much, but something), and then I could taste what is real sex, because before with my ex-husband there was no real connection. I met and hung out with some men. I don’t know if it was for self-affirmation, but every time they were getting involved I used to leave them. Maybe it was some sort of revenge for what men have done to me when younger. At the same time, it was hard dangerous to be a woman and hang out with so many guys. I protected myself, of course, but I still had the necessity to taste everything and everybody.

I met a interesting person and got really involved. But during our talks, when being a little bit more open than I should about my intimacy, he chased me out. I heard words like: whore, hooker, slut. Just because I have met some men after the divorce. He said that women like me don’t have value. Do you know those cliche expressions every women knows? So…

I couldn’t escape from him. He used to look for proofs of my past on my stuff, my emails, my cellphones, and put on my face as I had committed the most hideous crime a woman can do: feeling and being free.

“(…) as I had committed the most hideous crime a woman can do: feeling and being free.”

I was sick of him. I was pregnant and nervous. But I couldn’t escape from this man that psychologically tortured me. I suffered this kind of torture for years. He was insecure and created expectations about me that I could never achieve. He would just be frustrated to start throwing up words at me as I was a sanitary. And he always came after saying that he loves me and asking for pardon. And I used to forgive him, but each time more and more unhappy. He could make me feel responsible for everything. I am still fighting against the sequels of this relationship.

Patrícia, 39 – Biologist
SÃO PAULO, Brasil.

 

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