Desconfiguração no rosto de Frida Kahlo: garras da normatização e mercantilização do corpo e da vida das mulheres, by Paulinha Cervelin Grassi

Source: https://marchamulheres.wordpress.com/2013/11/22/desconfiguracao-no-rosto-de-frida-kahlo-garras-da-normatizacao-e-mercantilizacao-do-corpo-e-das-vidas-as-mulheres/

Há uma nova versão da pintura Autorretrato con Collar de Espinas (1940), de Frida Kahlo, circulando pela internet. Trata-se de alterações no rosto da pintora mexicana, procurando enquadrá-la em uma estética contemporânea de beleza perfeita.

O autor desconhecido, ao desconfigurar o autorretrato, demonstra uma tremenda falta de respeito com a irreverente e transgressora Frida Kahlo. Logo Frida que, através de suas obras, seu corpo e seu vestido tehuana, rompeu com a estética burguesa da época. Esse mesmo padrão de beleza burguês (e assim, machista, racista, homofóbico e classista) que hoje, com novas roupagens, continua a disciplinar e, cada vez mais, mercantilizar os corpos e a vida das mulheres.

Fonte: Blog Indumentária.

Frida Kahlo, ao longo de sua vida, pintou diversos autorretratos que expressavam sua vida marcada de intensidades. Em carta a Carlos Chávez, em 1939, a pintora analisa sua arte: “Uma vez que meus temas sempre foram minhas sensações, meus estados de espírito e as reações profundas que a vida tem causado dentro de mim, muitas vezes materializei tudo isso em retrato de mim mesma, que eram a coisa mais sincera e real que eu podia fazer para expressar o que sentia a meu respeito e a respeito do que eu tinha diante de mim”.

Seu rosto nos autorretratos era acompanhado por diversos elementos como espinhos, macacos e até mesmo um pássaro morto, os quais expressavam, sobretudo, suas dores. Além desses elementos, na maioria de seus quadros há presença da blusa bordada que forma o traje tehuana, ou de adornos em seu cabelo, elementos os quais recordam sua estética baseada nas raízes indígenas mexicanas. Vale ressaltar que o traje tehuana é originário das mulheres do istmo de Tehuantepec (Oaxaca, México) e Frida, ao usá-lo cotidianamente, expressava sua ligação com o povo e a história mexicana.

Claúdio Carvalhaes, autor do texto O vestido revolucionário de Frida Kahlo, sustenta que essa alteração não é novidade, e que faz parte de um processo de esvaziar Frida e suas referências políticas, culturais e revolucionárias, de forma a ficar palatável ao consumo regrado de beleza norte americano.

A tentativa do artista desconhecido em modificar as feições de Frida é deste modo, além de um desrespeito à vida da artista, uma agressão à resistência política de Frida expressa em sua estética. Ademais, as famosas sobrancelhas e bigodes de Frida incomodam o padrão de beleza perfeita e comercial, ao questionarem a representação e a imagem do feminino.

Chicua (um dos apelidos de Frida) transborda de quebras, irreverências, desobediência, autenticidade e libertação: uma afronta à construção tradicional de mulher comportada, benevolente e preocupada excessivamente com a estética, que hoje, desde cedo, é treinada para se tornar uma perfeita consumidora e refém de produtos e conceitos de beleza e moda. Nuestra Frida é irritação para os interesses patriarcais–capitalistas de normatização e mercantilização dos nossos corpos e das nossas vidas.

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